Interrupção de chamada

Mercedes-AMG GT, Lamborghini Huracán STO, Porsche 911 GT3. Carros de milhões, para poucos. Qual é o mais rápido?

Bem, velocidade é um conceito relativo: no desempenho em linha reta, há hipercarros que deixam facilmente pra trás esses três superesportivos – que, por direito, fazem parte do clube exclusivo que todo ano vai à pista de nossa parceira Quattroruote, aqueles que chegam aos 100 km/h em três segundos.

Mas a missão deles não é essa – ou melhor, não apenas. Aqui, o conceito de velocidade está ligado à capacidade de fazer curvas em velocidades anormais, à rapidez com que a dianteira atinge o ápice da curva e ao imediatismo com que o pé direito consegue voltar a pisar no acelerador, para sair o mais rápido possível depois de uma curva.

São todos conceitos-chave no mundo das corridas, e é exatamente do automobilismo que essas joias extraem força vital. Somam 1.880 cv de potência, e cada um tem sua fórmula: seis, oito e dez cilindros, com motores colocados à frente, no centro e atrás. Todo o conhecimento da engenharia automobilística foi usado para levar o prazer ao volante a níveis antes desconhecidos.

porsche 911

OS PROTAGONISTAS

Os três supercarros compartilham soluções técnicas inspiradas em modelos de corrida – e vice-versa, no caso do Porsche 911, que até serve de ponto de partida para alguns modelos de competição. Derivam de veículos já existentes e conhecidos, mas são profundamente diferentes deles.

O Mercedes-AMG GT, é especial justamente por pertencer à exclusiva linhagem Black Series – que já está, inclusive, esgotada no Brasil.

É o sexto integrante dessa família, e difere do AMG GT “normal” a começar pelo motor: é o mesmo V8 4.0 biturbo, mas – entre muitas modificações – tem eixo de comando (árvore de cames) plano: o som muda, o carro fica mais áspero e ganha agilidade.

Já o pacote aerodinâmico é extraordinário, semelhante ao do GT3 de corrida, e a índole para as pistas é destacada por soluções refinadas: cambagem dianteira e traseira ajustáveis, splitter dianteiro removível e opção de composto duro ou pneus Michelin Cup 2 R.

O caso do Lamborghini é semelhante, e ele fica muito acima dos outros Huracán também no preço: absurdos R$ 6,2 milhões no Brasil, contra “só” R$ 1,7 milhão na Itália. É o preço da exclusividade das soluções.

A carroceria, quase toda em fibra de carbono, é inspirada na do Super Trofeo Evo de competição, com visual “nervoso” e mais downforce; o “cofango”, união entre capô e para-lamas, além de homenagem ao Lambo Miura, é um agradável elemento de ostentação/exibição.

O motor é o conhecido 5.2 V10 de 640 cv, mas o chassi é exclusivo, com configurações mecânica e eletrônica que fazem do STO o Huracán mais divertido já produzido.

1.880 cv de potência e diferentes fórmulas: oito, seis e dez cilindros e motores colocados à frente, atrás e no centro

Por último, mas não menos importante, temos o Porsche, outro expoente extremo de uma família de longa tradição – o primeiro GT3, com base do 996, nasceu em 1999.

Segundo quem o construiu, o 992 GT3 foi o projeto mais exigente da história da marca (leia aqui a avaliação detalhada dele). O motor 4.0 boxer de seis cilindros tem 510 cv, chegando a 525 na versão RS.

Mas talvez isso seja menos importante, pois as prioridades eram outras: redução de peso, cuidado aerodinâmico e modificações no chassi.

Tudo isso gera o melhor GT3 já construído até hoje, tanto em eficiência quanto em prazer ao volante. Dele derivam os GT3 Cup dos campeonatos monomarca e o novo 911 R da classe GT3.

0-100 KM/H: QUESTÃO DE TEMPO

A aceleração sempre foi um trunfo dos Porsche 911: o motor em balanço gera empuxo vertical no eixo traseiro e, consequentemente, muita mais aderência.

No GT3, os pneus de alta aderência e um controle de largada bem ajustado melhoram ainda mais as coisas.

O resultado é total ausência de patinação e um arranque rápido, que se traduz no 0-100 km/h de ínfimos 2,96 segundos – alguns milésimos melhor que o Huracán STO, que também possui um motor central-traseiro pesado, que ajuda a garantir boa tração na arrancada.

No caso do Lambo, porém, mesmo com maior torque e potência, os pneus traseiros sofrem mais para encontrar a aderência necessária.

Este é o fenômeno que mais aflige o Black Series, que fica atrás, com 0-100 km/h em 3,41 segundos. O motor fica na frente, então a traseira é mais leve, e as rodas traseiras precisam despejar 800 Nm no chão, quase o dobro do que tem o Porsche.

Na arrancada, ele é “rear limited”, como se diz no jargão das pistas, então nada pode fazer contra seus rivais.

No entanto, depois que encontra aderência, o AMG e seu monstruoso V8 se impõem: a partir de 150 km/h, ele passa o Porsche, enquanto o Lambo segue à frente.

O Black Series cruza a linha de chegada dos 1.000 metros em 19,5 segundos, já acima dos 275 km/h, enquanto o GT3 não chega nem a 260 km/h (são 220 cv de diferença, afinal).

Em tudo isso, surpreende o Lambo manter o ritmo do AMG mesmo tendo 90 cv a menos.

 

E também há de se pensar em usabilidade, uma vantagem da qual só a Porsche pode se orgulhar. O nível de conforto não é nem remotamente comparável.

E se você quiser levar algo na viagem, o Porsche 911 é o único capaz de resolver o problema, graças ao porta-malas dianteiro e também ao espaço atrás dos bancos; o Mercedes só tem um “top case”, parcialmente ocupado por pilares que devem sustentar a asa traseira, e no Lamborghini não há sequer vestígios de um compartimento de carga.

Aerodinâmica: o poder do ar

Soluções extremas produzem toneladas de downforce, que “cola” o carro às pistas, e os chassis também são mais refinados, com materiais leves e outras soluções

A conexão entre automobilismo e carros de produção em série está mais próxima do que nunca. Aerodinâmica, conjunto motriz e chassi compartilham soluções com as respectivas versões de corrida.

Com uma diferença: o Porsche 911 GT3 é o único dos três aqui que serve de ponto de partida para modelos de corrida, desde campeonatos monomarca até a classe GT3 911 R, enquanto Mercedes-AMG e Lamborghini adotam soluções já usadas nos irmãos de corrida. A altíssima aerodinâmica, porém, é o que distingue os protagonistas.

O objetivo era o máximo de downforce, e cada um o faz seguindo a receita das corridas, gerando um empuxo de cima para baixo.

Todos têm fundos planos para favorecer o trabalho do extrator traseiro, de modo a acelerar os fluxos de ar sob o carro e, assim, criar uma sucção descendente.

O ar que os pressiona contra o solo passa também pelas asas traseiras de tamanho generoso com incidência variável e pelos splitters dianteiros, para “pesar” também na frente.

Tanto no Mercedes quanto no Lambo, há, ainda, “persianas” nos para-lamas dianteiros, aquelas fendas que criam uma mínima downforce (no Porsche, só no GT3 RS).

Nos chassis, é abundante o uso de fibra de carbono (especialmente no STO) para reduzir o peso e os esquemas de suspensão preveem uso de quadrilátero dianteiro – novidade no caso da Porsche – e amortecedores controlados eletronicamente. O GT3 e o STO, aliás, também possuem rodas traseiras esterçantes.

Já nos motores, se o seis cilindros boxer de Stuttgart e o V10 de Sant’Agata representam a evolução máxima de motores conhecidos, em Affalterbach foram mais longe: pegaram o V8 biturbo 4.0 M178 e o viraram do avesso, chegando não só à maior potência máxima já alcançada, mas também uma mudança de personalidade.

Na pista: perto do recorde

Com suas qualidades propulsivas e aerodinâmicas, o Black Series ameaçou a liderança do hipercarro italiano Pagani Huayra. Já o 911 GT3 é surpreendente: tem menos potência, mas um equilíbrio perfeito

Deixando o cronômetro de lado por um instante, um aspecto aproxima esses três superesportivos: há neles um equilibrio e uma harmonia entre os componentes que é capaz de torná-los rápidos e fáceis, tudo ao mesmo tempo.

Esses carros fazem exatamente o que você espera, como se fossem uma extensão mecânica do seu cérebro. E isso apesar dos diferentes layouts técnicos.

O Mercedes, embora tenha motor dianteiro, ainda é afiado nas tomadas de curva e tem ótimo handling. Fortalecido por uma avalanche de cavalos de potência, Newton metros de torque e dezenas de quilos de pressão aerodinâmica, ele se distancia por pouco do recordista Pagani Huayra.

Já o Porsche 911 impressiona: com “apenas” 510 cv, ele fica só 1,8 segundo atrás, sendo o que melhor personifica o conceito de equilíbrio perfeito – também auxiliado pelos pneus Michelin Cup 2 R, os mesmos do AMG.

O Lamborghini, por fim, fica um segundo atrás do GT3 devido a uma aderência (grip) geral ligeiramente inferior. Seus Bridgestone preferem durabilidade e desempenho constante a poucas voltas rápidas. Uma estratégia que, para um track day, é compreensível.

porsche 911

CONCLUSÃO: PORSCHE 911 É O MAIS EQUILIBRADO

Se ficássemos confinados à pista de corrida, os números falam por si: o AMG GT Black Series tem poder de fogo contra o qual os outros pouco podem fazer: um motor muito potente e utilizável, aderência mecânica enorme e uma carga aerodinâmica superior às dos rivais; tudo isto se traduz em menores tempos de volta – desde que o piloto saiba gerir o arsenal, o que requer mãos experientes.

Já o Lambo, com soluções extremas aerodinâmicas e de chassi, é um dos carros mais gratificantes para uso em pistas que o dinheiro pode comprar hoje; talvez não seja o mais rápido deles, por causa dos pneus, mas proporciona imenso prazer ao volante, sobretudo pela agilidade e precisão do chassi.

Depois, temos o Porsche 911 GT3 que, ainda na pista, mesmo que deva muito cavalos aos outros, mostrou não temer a comparação. O GT3 fica em outra categoria, considerando potência e preço. No entanto, ele mostrou que pode lutar de igual para igual com estes rivais muito mais ambiciosos e caros. Isso se deve ao equilíbrio e harmonia absolutos entre seus componentes mecânicos, um fator capazes de torná-lo particularmente eficaz, sólido e divertido de guiar. Ou seja, o carro que em teoria seria o mais fraco deste comparativo mostrou-se digno de enfrentar os demais na pistas, e é até mesmo superior em certas situações.

porsche 911

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